FÁBIO ANDRADE
A Eau Rouge é, certamente, a mais mítica curva da Fórmula-1 atual. E o título faz sentido. Em meio a circuitos recheados de curvas em 2ª ou 3ª marcha e com pouca variação de relevo, a pista de Spa-Francorchamps nos oferece uma curva em descida em alta velocidade que repentinamente se torna uma subida íngreme. A saída desse paredão não é vista pelos pilotos quando eles estão no ponto mais baixo e além disso, há o fortíssimo efeito da força G, que exerce uma absurda força de compressão sobre o corpo dos pilotos. Reza a lenda que eles perdem, momentaneamente, o foco da visão no ponto mais crítico da curva.
Há quem diga que a Eau Rouge de hoje já perdeu parte de seu desafio graças à extrema eficiência da pressão aerodinâmica dos carros. Já faz um certo tempo que qualquer piloto consegue vencer a Eau Rouge com o pé embaixo. Sim, a Eau Rouge tornou-se uma curva flat, mas esse blogueiro se recusa a aceitá-la como um desafio diminuído por conta disso.
E uma visita ao ano de 1999 mosta que as coisas nem sempre foram assim tão "fáceis" (muitas aspas, por favor) na curva-símbolo de Spa.
A começar pelo entorno da Eau Rouge. Se hoje a área de escape é asfaltada, há 11 anos a linha de fora da curva era coberta de terra e foi por lá que o piloto brasileiro Ricardo Zonta experimentou a sensação de perder o controle do carro e virar passageiro.
O acidente de Zonta encerrou uma trilogia de pancadas fortes na Eau Rouge entre 1998 e 1999. Em 98 Jacques Villeneuve bateu com a Williams; em 99 o mesmo Villeneuve acidentou-se, agora com um BAR. Minutos depois da forte batida do canadense, o ocupante do outro cockpit da BAR, Ricardo Zonta, retirou totalmente a equipe do treino classificatório para o GP da Bélgica daquele ano ao capotar e destruir o carro.
Se estivesse em 2010, Zonta provavelmente não teria tido um susto tão grande. É sabido que o asfalto na área de escape possui exatamente a função de evitar o que aconteceu com o piloto brasileiro: a capotagem. De toda forma, o saldo do acidente foi positivo para Zonta. O piloto da BAR saiu do carro por suas próprias pernas e foi caminhando até o veículo de resgate, absolutamente ileso depois da forte batida.
A Eau Rouge de 1999 possui ainda outra coisa que você não encontra mais em 2010: comissários de pista contemplando o movimento dos carros placidamente, desprotegidos de um possível "despiste" como se diz no português lusitano. Comissários de pista hoje são muito pouco lembrados. Na maioria das vezes você só os vê quando eles realmente se fazem necessários.








