Aproveitando a deixa, vou revelar qual foi a primeira vez que me peguei imaginando ver um piloto batendo para favorecer seu companheiro de equipe.
GP do Japão de 2003. Corrida que decidia o título da temporada. A situação parecia fácil para o Schumacher: bastava pontuar, e só. Já o rival Kimi Raikkonen precisava vencer e ainda torcer para o alemão não alcançar a zona de pontuação. O finlandês largava em 8º contra o então pentacampeão vindo de 14º, em função da chuva no final daquele qualifying de volta única lançada.
Lutando fortemente por posições na corrida, Michael teve de se dirigir aos boxes após se chocar com o atrapalhado reestreante Takuma Sato, numa tentativa de ultrapassagem. Kimi ia subindo no grid, e por fim acabaria trocando de posição com David Coulthard para se aproximar do título. À frente das McLarens, apenas a Ferrari de Rubens Barrichello. A corrida terminou com Raikkonen em 2º e Schumacher fazendo o resultado feijão com arroz em 8º.
Durante um dado instante daquela corrida, pensei numa pequena inversão de situação em dois atos:
1) E se o Schumacher na verdade estivesse em 9º?
2) Se, por alguma razão, o Barrichello estivesse atrás das McLarens, ao invés de estar à frente?
Nesta combinação, o título seria do Raikkonen. Michael precisaria ganhar uma posição para chegar nos pontos. Como a Ferrari resolveria isso, tendo Rubens na zona de pontuação?
Na hora, me pareceu óbvio. Posso estar enganado, mas creio que eles fariam.
No entanto, prefiro fugir do título do post. A questão aqui não é julgar a postura da Ferrari dentro desta colocação hipotética. A questão é: se um time qualquer manda o segundo piloto bater na corrida decisiva em nome do campeonato mundial, seria compreensível?
A acusação que recai sobre a Renault sugere uma postura maldosa, ligeiramente motivada por interesses comerciais. Afinal, com tantas corridas no campeonato, por que um manobra assim seria efetuada justo na tão badalada primeira corrida noturna da F-1? Hoje sabemos que o GP de Cingapura, apesar de ter sido realizado apenas uma vez, já entrou para a
lista das mais valiosas marcas do esporte.
Voltemos ao contexto geral: Você já pensou num título sendo decidido por uma batida proposital de um escudeiro fiel ao seu time? Isso seria um crime menor? Maior? A FIA entenderia a função exercida pelo piloto no momento chave da disputa pelo campeonato, ou cassaria o título do beneficiado?
Por essas e outras, não encaro o chamado "Renaultgate" como o cúmulo do absurdo elevado ao quadrado. Claro que é bem grave, porém já vi coisas piores na F-1, e creio que polêmicas mais tempestuosas devem surgir futuramente.