domingo, 4 de abril de 2010

No seco, Vettel lidera dobradinha da Red Bull na Malásia



FÁBIO ANDRADE



Era chegada, finalmente, a hora de vencer. E depois de tantas vezes bater na trave, não se pode negar a justiça da vitória de Sebastian Vettel hoje no GP da Malásia. O alemão da Red Bull fez uma corrida tão irretocável que só apareceu na transmisão televisiva na largada e na chegada. Superou seu companheiro de equipe na partida e daí em diante desapareceu, tanto porque imprimiu um forte ritmo de corrida, como porque sumiu das telas da tv durante o restante das 56 voltas da corrida.



Vettel ficou na penumbra porque a tv tinha com o que se ocupar. Largando do fundo do grid, Jenson Button, Lewis Hamilton, Fernando Alonso e Felipe Massa movimentaram a corrida. A chuva, tão aguardada, parece ter sofrido um ataque de estrelismo, e não apareceu no dia de gala. Restou então a essas estrelas que vivem abaixo do firmamento chamadas pilotos garantirem o ingresso do público malaio e a manhã de vigília dos brasileiros.
O necessário Hamilton

O fim do reabastecimento ainda é assunto porque ainda se observam todas as mudanças no comportamento dos pilotos. Não há mais a expectativa de ultrapassagens nos boxes (se há ela foi em muito reduzida) e os pilotos precisam se resolver por seus próprios meios. E aí acabam problemas de arrasto, turbulência, super freios e carros desequilibrados. Quando se precisa ganhar uma posição, até mesmo um tilkódromo pode se converter numa pista de verdade.

Lewis Hamilton é um dos mais notáveis pilotos do atual grid quando o assunto é ultrapassagem. Vão falar, e muito, da manobra do britânico pra defender-se do russo Vitaly Petrov, afinal, uma defesa de posição tão "malandra" era algo que não se via há muito tempo. Mas, afinal, por que aquelas pessoas se sentam num carro de corrida a cada 15 dias, a não ser com o objetivo de ir ao limite a cada segundo? O destemor, como bem foi observado no GP da Austrália, é, certamente, a maior qualidade e o pior defeito de Hamilton, e é também aquilo que faz o campeão de 2008 ser amado por uns e odiado por outros tantos. Hamilton é, portanto, um piloto mais do que desejável nessa F-1 sem reabastecimento, ele é necessário, porque com pneus frios e tanque cheio, no início da corrida, não mediu esforços para ganhar quantas posições pudesse. Ainda falta um grande resultado ao britânico em 2010, é verdade, mas tal como o tempo fez justiça a Vettel, certamente a hora de Hamilton vai chegar.



Enquanto Hamilton era o grande personagem das primeiras voltas, Massa, Alonso e Button ficaram para trás. Não chegaram a ser geniais na largada porque estavam em entre carros 2 segundos mais lentos. Ganhar 7 posições de rivais tão modestos não é algo digno de ser chamado de desafio. Mas no passar das voltas todos demonstraram grande competência ao extrair o máximo de seus equipamentos, sobretudo Alonso, com problemas de câmbio que eram audíveis perante as câmeras onboard. É questionável a tática de Button de trocar os pneus duros por macios logo na 6ª volta e talvez o atual campeão tenha sido o mais fraco do quarteto Ferrari-McLaren, mas, se serve de consolo, houve gente com menos sorte.

Antes confiabilíssimos, o equipamento com a grife Ferrari já não exibe a mesma durabilidade há tempo. E se Schumacher era o rei da sorte no time de Maranello, como se fosse imune a quebras, o começo de carreira de Fernando Alonso na equipe italiana encontrou em Sepang seu ponto baixo. A quebra foi particularmente cruel para o asturiano como só as quebras no finzinho de corridas podem ser, e porque entregou a Felipe Massa a liderança do campeonato.



Massa teve seu grande momento ao ultrapassar Button, apesar de continuar reclamando de falta de aderência na F10. Lá na frente, apesar de apagados na transmissão da tv, Nico Rosberg, Robert Kubica a Adrian Sutil tiveram conduções competentes, demonstrando, mais uma vez, que a geração que chega tem qualidade de sobra.

E qualidade é artigo do qual a Red Bull está bem servida. Dominante na corrida, a equipe finalmente enfrentou um fim de semana sem quebras. Era o que bastava para pintar a vitória, tão apoteótica como só as dobradinhas podem ser. E se o objetivo da nova distribuição de pontos era privilegiar a vitória, Vettel mostra que a mudança cumpriu o prometido. O alemão pulou da 7ª para a 3ª posição do campeonato mundial. A volta do poder de reação, castrada pela pontuação vigente entre 2003 e 2009, é a melhor novidade do GP da Malásia.
Grande Prêmio da Malásia, após 56 voltas:

1°. Sebastian Vettel (ALE/Red Bull-Renault), 1h33min48s412
2°. Mark Webber (AUS/Red Bull-Renault), a 4s8
3°. Nico Rosberg (ALE/Mercedes), a 13s5
4°. Robert Kubica (POL/Renault), a 18s5
5°. Adrian Sutil (ALE/Force India-Mercedes), a 21s0
6°. Lewis Hamilton (ING/McLaren-Mercedes), a 23s4
7°. Felipe Massa (BRA/Ferrari), a 27s0
8°. Jenson Button (ING/McLaren-Mercedes), a 37s9
9°. Jaime Alguersuari (ESP/Toro Rosso-Ferrari), a 1min10s6
10°. Nico Hulkenberg (ALE/Williams-Cosworth), a 1min13s3
11°. Sebastian Buemi (SUI/Toro Rosso-Ferrari), a 1min18s9
12°. Rubens Barrichello (BRA/Williams-Cosworth), a 1 volta
13°. Fernando Alonso (ESP/Ferrari), a 2 voltas
14°. Lucas Di Grassi (BRA/Virgin-Cosworth), a 3 voltas
15°. Karun Chandhok (IND/Hispania-Cosworth), a 3 voltas
16°. Bruno Senna (BRA/Hispania-Cosworth), a 4 voltas
17°. Jarno Trulli (ITA/Lotus-Cosworth), a 5 voltas

sábado, 3 de abril de 2010

Sob forte chuva, Webber é pole na Malásia



FÁBIO ANDRADE



A chuva costuma trazer surpresas e embaralhar a lógica da Fórmula-1, e num ambiente equatorial como a Malásia, carros e pilotos disputaram uma sessão de classificação como não se via desde o último GP do Brasil: forte chuva, muitas saídas de pista, alguns dos favoritos fora do Q3 e a bandeira vermelha tremulando nas mãos dos comissários.

A chuva caiu sobre o circuito de Sepang durante toda a sessão, mas o atraso de hoje foi muito menor do que o ocorrido na última qualificação em Interlagos. O estrago para os postulantes ao título, no entanto, foi semelhante. A começar pela dupla da Ferrari e por Lewis Hamilton, eliminados logo no Q1. O trio de pilotos das equipes de ponta saiu para tentar a volta rápida exatamente no momento em que a chuva atingia maior intensidade e não conseguiu passar adiante nas etapas do qualifying.

Quem também não teve sorte na pista malaia foi Jenson Button. O atual campeão até conseguiu marcar um tempo que o habilitou para o Q2, mas rodou e foi parar na caixa de brita na volta de desaceleração. Encalhado na área de escape, Button ficou impedido de participar do restante do treino.

Ao final do Q3 duas das equipes que normalmente ocupam o fim do grid conseguiram avançar: Lotus e Virgin, ainda que a última apenas com Timo Glock.

Durante o Q2 a pista esteve instável. Nos 15 minutos de atividades houve tempo para a chuva ir e vir. Como era de se esperar, Lotus e Virgin sucumbiram, na companhia de Petrov, de La Rosa, Buemi e Alguersuari.

O Q3, com sobra de vagas, abrigou vários pilotos que raramente têm chance de brigar pela pole até o final. Nico Hulkenberg e Kamui Kobayashi foram as maiores surpresas. O desempenho da Force Índia mais uma vez se mostrou sólido, e os dois pilotos da equipe também foram até a última etapa da classificação.

Foi durante a Superpole que a chuva caiu com mais força. Num incrível replay da tempestade que interrompeu o GP da Malásia de 2009, uma tormenta desabou sobre o autódromo, cobrindo as lentes das câmeras de branco. Restando 7 minutos e 17 segundos para o encerramento do treino e antes que algum piloto completasse uma volta no Q3, a bandeira vermelha interrompeu a classificação em função da forte chuva.

Foram cerca de 15 minutos de espera até que as atividades fossem retomadas. E no fim das contas a pole position não foi nenhuma zebra: Mark Webber, com extremo senso de oportunidade, conquistou para a Red Bull a 3ª pole em 3 corridas. O piloto australiano foi o único a perceber que a pista já apresentava condições para uso dos pneus intermediários, enquanto os outros 9 competidores usavam os pneus de chuva forte.



Dessa forma Webber conseguiu ser mais de um segundo melhor do que o restante dos pilotos. Nico Rosberg, da Mercedes, marcou o 2º tempo e Sebastian Vettel, companheiro de Webber, o 3º.

Para além de uma corrida divertida, com 4 dos melhores carros e pilotos partindo do fundo do pelotão, a expectativa para o GP da Malásia é sobre as condições climáticas. Pelo que se viu hoje na classificação, não custa muito para que se repita na corrida o que se viu no ano passado, ocasião em que, das 56 voltas previstas, apenas 31 foram concluídas por causa da forte chuva. Os treinos classificatórios de hoje foram realizados no horário em que a corrida será disputada amanhã e nunca é demais lembrar que em regiões de clima equatorial a chuva cai forte e pontualmente ao fim da tarde. Se novamente a corrida malaia tiver de ser interrompida por causa da água, a F-1 novamente vai perder a guerra contra o clima.
Grid de largada para o Grande Prêmio da Malásia:

1°. Mark Webber (AUS/Red Bull-Renault), 1min49s327
2°. Nico Rosberg (ALE/Mercedes), 1min50s673
3°. Sebastian Vettel (ALE/Red Bull-Renault), 1min50s789
4°. Adrian Sutil (ALE/Force India-Mercedes), 1min50s914
5°. Nico Hulkenberg (ALE/Williams-Cosworth), 1min51s001
6°. Robert Kubica (POL/Renault), 1min51s051
7°. Rubens Barrichello (BRA/Williams-Cosworth), 1min51s511
8°. Michael Schumacher (ALE/Mercedes), 1min51s717
9°. Kamui Kobayashi (JAP/Sauber-Ferrari), 1min51s767
10°. Vitantonio Liuzzi (ITA/Force India-Mercedes), 1min52s254
11°. Vitaly Petrov (RUS/Renault), 1min48s760
12°. Pedro de la Rosa (ESP/Sauber-Ferrari), 1min48s771
13°. Sebastian Buemi (SUI/Toro Rosso-Ferrari), 1min49s207
14°. Jaime Alguersuari (ESP/Toro Rosso-Ferrari), 1min49s464
15°. Heikki Kovalainen (FIN/Lotus-Cosworth), 1min52s270
16°. Timo Glock (ALE/Virgin-Cosworth), 1min52s520
17°. Jenson Button (ING/McLaren-Mercedes), sem tempo
18°. Jarno Trulli (ITA/Lotus-Cosworth), 1min52s884
19°. Fernando Alonso (ESP/Ferrari), 1min53s044
20°. Lewis Hamilton (ING/McLaren-Mercedes), 1min53s050
21°. Felipe Massa (BRA/Ferrari), 1min53s283
22°. Karun Chandhok (IND/Hispania-Cosworth), 1min56s299
23°. Bruno Senna (BRA/Hispania-Cosworth), 1min57s269
24°. Lucas Di Grassi (BRA/Virgin-Cosworth), 1min59s977

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O favorito para o GP da Malásia



FELIPE MACIEL


Lewis Hamilton aterrissou na Malásia de cabelo em pé depois de um fim de semana complicado na Austrália. Lá, ele viu o atual campeão e novo companheiro de equipe, Jenson Button, conquistar a primeira vitória da McLaren no ano e ainda se posicionar em 3° na tabela classificatória, logo à sua frente.

Hamilton terminou a corrida dando uma prensa na equipe que alterou sua estratégia durante a prova. Mas essa postura agressiva não passou batido, e alguém lá dentro mostrou quem é o chefe. Daí Lewis teve de inverter suas palavras:
A equipe me explicou as razões por trás daquele segundo pit, e agora entendo que eles estavam se esforçando para que eu superasse Webber e Nico mais para o fim da corrida. Ainda estamos aprendendo sobre os pneus deste ano e talvez tenhamos superestimado a degradação dos compostos do pelotão da frente. Aprendemos com isso e vamos usar este conhecimento para melhorar ao longo da temporada.

Foi bom ver a equipe celebrando a vitória do Jenson. Vitórias são muito importantes porque unem todo o time e mostram que estamos no caminho certo

Lewis Hamilton



Em Sepang, o cutucado piloto começou mostrando logo a que veio: sobrou no primeiro treino livre e baixou o tempo na segunda sessão. A sexta-feira foi toda dele.

Claro que o carro da McLaren também está ajudando. Sua tão falada asa traseira e o túnel de ar controlado pelos pilotos trazem o funcionamento aerodinâmico que casa com a pista. Além da força demonstrada para o treino classificatório, o inglês bom de chuva pode esperar corrida no molhado. Não são poucas as chances de Lewis ampliar sua coleção de vitórias aquáticas neste GP.



A Red Bull abriu o fim de semana mostrando menos ritmo que nas corridas anteriores e a mesma deficiência de confiabilidade. A Mercedes esboça crescimento mas não a ponto de ser dada como favorita. Já a Ferrari escondeu o verdadeiro potencial treinando long runs, mas também deve estar surpresa com a velocidade apresentada pela McLaren no primeiro dia.

Até agora, a briga mais interessante entre as principais duplas de equipe é entre Hamilton e Button. Na Ferrari, ninguém ataca ninguém. Na Mercedes, Schumacher ainda tenta se achar. Na Red Bull, os pilotos nunca se encontram na pista. Mas na McLaren, Hamilton já executou ultrapassagem sobre o Button, que respondeu com o uso de uma estratégia acertada para levar a vitória.

Direito de resposta a Lewis a partir das 5h da manhã. Segura o Miltão mordido que eu quero ver...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Rádio OnBoard - Edição de Melbourne



FELIPE MACIEL



No ar, a edição número 73 da Rádio OnBoard!

O trio formado por Ron Groo, Fábio Campos e eu comentou o empolgante GP da Austrália com todos os seus pontos altos e as pequenas polêmicas derivadas desta prova movimentada. Ao fim do programa, os comentaristas expõem uma visão crítica do trato dado pela Globo e pela Band ao automobilismo.


Clique para ouvirClique para baixar



Retornamos semana que vem, após a passagem da F-1 pela Malásia para a realização da terceira etapa do Mundial, antes do primeiro intervalo de 3 semanas do ano. Até a próxima.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Chuva no GP da Malásia: bom ou ruim?



FELIPE MACIEL



A chuva não é um personagem muito comum nos GPs da Malásia. Mas no ano passado Bernie Ecclestone resolveu correr o risco de dar a largada mais tardiamente, numa displicente provocação a São Pedro, que sempre ataca no final da tarde nessa época do ano.

Nós tivemos em 2009 uma meia corrida em pista seca que foi de tirar o fôlego. Sim, no seco a Fórmula 1 fez um show, que ironicamente teve de ser interrompido pela chuva.

A perda de luz natural causou o encerramento do GP, mas o fator gerador da paralisação da corrida na verdade foi a própria chuva. Uma tempestade desceu com toda força, tornando as condições inguiáveis para qualquer piloto.




Ou seja, chuva na Malásia tem potencial de sobra para congelar a prova, ao invés de colaborar com o espetáculo. Se vai haver relargada depois ou não, é outra história.

E nessa história entra a pequena minimização do risco tomado pelos dirigentes, que determinaram o começo da prova 1h antes em relação à última temporada, quando a etapa iniciada às 15h locais foi interrompida na 31ª das 56 voltas.

Em 2010, as luzes vermelhas se apagam às 16h em Sepang. E a meteorologia já espera água. Resta-nos torcer para que não seja outro dilúvio. A F-1 se submete ao risco de repetir o vexame graças à atuação financeira da FOM, que visa um lucro forçado abrindo mão do horário ideal e pondo em jogo o andamento da prova.



A pista de Kuala Lumpur não é tida como um local especial para ultrapassagens, mas tem a brilhante capacidade de alternar corridas monótonas com grandes lances, como esse ocorrido em 2008, numa disputa de 3.

O velho circuito do Tilke apresenta largura até exagerada para colaborar com as disputas. Retas principal e oposta bem longas, trajetória de curvas suavemente arredondadas, desenhadas numa época em que não lhe exigiam tantos cotovelos. Eu diria que o irmão mais novo de Sepang é Xangai; são traçados que possuem certas semelhanças mas você nunca sabe se deve esperar um belo GP ou uma madrugada sonolenta.

Algo me faz estar otimista para a 12ª edição do Grande Prêmio da Malásia. Não sei se motivado pela corrida da Austrália ou por esta previsão de chuva - afinal, um possível banho bem dosado na pista não nos deixaria motivos para reclamar...

terça-feira, 30 de março de 2010

Um espectro ao redor de Schumacher



FÁBIO ANDRADE





Dois mil e nove, final de agosto, início de setembro. Eu, completamente offline por causa de uma pane em meu computador pessoal, fico sabendo do retorno de Michael Schumacher pelo sotaque inegavelmente nordestino de Ticiane Villas Boas, no Jornal da Band. Exulto, é claro, porque a volta de piloto sobre o qual recaem ódios e paixões prometia sacudir um pouco o marasmo da temporada em que Jenson Button podia se dar ao luxo de controlar a tabela de classificação de longe.

A imprensa do mundo acompanha o movimento e também explode em manchetes celebrando o retorno do alemão depois de apenas 3 anos de aposentadoria. Schumi substituiria Felipe Massa na Ferrari, nocauteado pelo acidente durante a classificação para o GP da Hungria. Só que a pretensa volta do maior quebrador de recordes da F-1 se desfaz melancolicamente diante das limitações físicas contraídas após uma queda numa corrida de motocicletas na Alemanha. Luca Badoer e Giancarlo Fisichella acabam ocupando o cockpit vago na equipe italiana e são violentamente fritados por um carro difícil de guiar.

Dezembro de 2009. A Mercedes anuncia a contratação de Schumacher como piloto titular. Dessa vez sem adiamentos, o anúncio é formal e oficial e o alemão aparenta estar recuperado das dores no pescoço que o impediram de correr três meses antes pela Ferrari. Repete-se o mesmo rosário de festejos pelo retorno do mito.

E agora, em março de 2010, depois de duas corridas em que o desempenho de Schumacher ficou bem abaixo da crítica, o movimento é o contrário. Chovem críticas sobre a cabeça do alemão e diante dos resultados fracos, ninguém oferece ao heptacampeão um guarda-chuva. É o preço do risco que Schumacher correu ao voltar.

Quando desligou o motor de sua Ferrari no GP do Brasil de 2006, Schumacher era uma lenda viva. Saía de cena como mito, mesmo perdendo os dois últimos mundiais para o jovem Fernando Alonso. Mas vitórias e derrotas são parte do esporte, mesmo que durante parte da carreira do alemão, a derrota tenha praticamente sido riscada de seu vocabulário. Os dois campeonatos perdidos para o jovem e talentoso espanhol não arranharam os 7 títulos de Schumi. Numericamente incontestável, ainda que sua carreira abra espaço para toda a sorte de questionamentos.

Essa era a herança imutável que Schumacher oferecia para a F-1 até então. Ele seria para sempre um mito porque mesmo não sendo campeão em seu ano de despedida, parou no auge, disputando o título até o fim, com uma impressionante velocidade, mesmo aos 37 anos. Retornar três anos depois da aposentadoria era arriscar essa imagem de mito, numa aventura que tem dois destinos viáveis: em caso de vitória e disputa de título, eleva-se ainda mais como lenda, não só da velocidade como também da longevidade. Mas se passar 2010 em branco e com maus resultados, arranha a própria aura de maior de todos os tempos. Até agora a segunda alternativa é a mais próxima da realidade de Schumi.

Depois de duas corridas realizadas talvez seja cedo para julgar e talvez a imprensa internacional, sobretudo a italiana, esteja se precipitando, mas é fato que o desempenho do alemão em nada faz lembrar o dos ricos anos da Ferrari. Sexto lugar no Bahrein, décimo na Austrália, atrás do jovem companheiro de equipe Nico Rosberg nas duas ocasiões. Na Austrália ainda com o agravante de passar dezenas de voltas negociando uma ultrapassagem com o inofensivo Jaime Alguersuari, da pequena Toro Rosso.

O que acontece é que 2010 não é 2002, a Mercedes não é a Ferrari daqueles tempos, seu companheiro de equipe consegue ser rápido com frequencia e a geração que aí está seguramente é mais capaz do que a de oito anos atrás. Ao assinar com a Mercedes, Schumacher, na verdade, estava hipotecando seu próprio legado. Cabe somente a ele lidar com as críticas, porque esse foi um risco evidente assumido pelo alemão ao anunciar seu retorno.  Terminar de pagar a dívida contraída e recuperar a posse de seu próprio sucesso como superstar da F-1 será o objetivo maior do heptacampeão em 2010.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Dupla de equipe: GP da Austrália



FELIPE MACIEL



Strike do Kobayashi


Confesso que até agora não entendi bem o acidente do Koba. De todo modo foi plasticamente impressionante, apesar de inofensivo para os padrões de segurança da F-1 de hoje. Sobre o Kobayashi é interessante notar que em nenhum momento ele chegou perto das exibições realizadas no Brasil e em Abu Dhabi.

Fábio Andrade



Não ficou claro a causa do acidente, tudo o que vi foi a asa dianteira se desmanchar da mesma forma que aconteceu no 1° treino livre. Se tiver sido uma recorrente falha boba como essa, então a Sauber tem um problema que é acima de tudo relativo à segurança!

Quanto à batida em si, sinceramente não lembro qual foi a última vez que usei a palavra "strike" com tanta convicção... Uma STR e uma Williams no meio da curva atingidos em cheio por um carro fora de controle em altíssima velocidade. Que pancão foi aquele?!

Felipe Maciel



Ferrari


Muito se fala que a Red Bull é a equipe mais forte do ano, e isso realmente é fato, ao menos nas classificações, mas o RB6 precisa terminar corridas. Em se tratando de eficiência nas corridas como um todo, a Ferrari é a equipe mais bem sucedida do ano, apesar de não ter tido um desempenho brilhante até aqui.

Fábio Andrade



O coleguismo da Ferrari é de se tirar o chapéu. Não que isso contribua com o julgamento emocional das corridas, mas fundamenta perfeitamente a filosofia moderna da escuderia e a eficácia do jogo de equipe. Se não podemos dizer que Felipe e Fernando usaram do "unidos venceremos", então diremos que criaram o "unidos terminaremos". Ambos ficaram juntos na pista, sem esboçar confronto interno, se respeitando e trabalhando em equipe por um resultado sólido.

Massa enfrentou problemas com os compostos Bridgestone durante todo o fim de semana mas fez a façanha de subir ao pódio. Sem contar que para os pneus melhorarem a temperatura, precisavam estar gastos. Sofrendo todo tipo de ataque durante o GP, brigou o quanto pôde e saiu num lucrativo 3° lugar. Já Alonso se atrapalhou na largada e fez uma prova de recuperação inacreditável. Não fosse a rodada na curva 1, tinha tudo para sonhar com a segunda vitória consecutiva.

Felipe Maciel



Hispania


É louvável que o Chandhok tenha chegado ao final numa equipe que passa por tantos problemas, mas além disso há pouco a acresentar. Terminar 5 voltas atrás não é propriamente algo que mereça comentários mais elogiosos.

Fábio Andrade



Parece piada mas o único carro de equipe nova que completou o GP foi o da HRT... A Hispania fez o que nem a Virgin conseguiu até hoje: Terminar a corrida. Quem diria? Karun Chandhok fez o milagre de levar aquela carroça até o fim. Ganhou o dia, afinal era o máximo com o que poderia sonhar. Chegar em 14° será a maior glória de um piloto da Hispania pelos próximos 17 GPs...

Felipe Maciel



Jenson Button


Confesso que nunca vi Button como um piloto acima da média, mas a temporada dele na Brawn me cativou, talvez pela figura simples que ele aparenta ser, talvez pela simpatia imediata que a gente tende a ter por quem surge como novidade. Mas o negócio é que fiquei autenticamente contente pela vitória dele. Quebrou as apostas da maioria, já que quase todo mundo esperava que a Red Bull ou a Ferrari discutissem a vitória. Foi o triunfo de quem arriscou, numa leitura muitíssimo correta da corrida. E também de quem teve a legítima sorte de campeão pelo abandono do Vettel.

A vitória do Button deu uma injeção de novos ares num campeonato que já vinha muito polarizado entre Red Bull e Ferrari, apesar de ainda estar no começo.

Fábio Andrade



Quando todos acharam que o Button tinha feito a maior bobagem, ele estava na verdade começando a construir sua vitória. A mudança de pneus foi a tática acertada e a saída do Vettel abriu caminho para a vitória do campeão logo em sua segunda corrida de McLaren! Nem vou lembrar que ele levou um passão do Hamilton no começo da corrida...

Felipe Maciel



Hamilton x Webber


Os dois, junto com o Kubica, o Massa e o Alonso (e o Rosberg, em menor escala) foram o centro das atenções da corrida, o pólo de acontecimentos do GP da Austrália. Pelas circunstâncias da corrida eles, Hamilton e Webber, aparentaram ter os carros mais equilibrados do meio do bloco. Foram agressivos durante toda a prova, fizeram uma bela corrida, trouxeram de volta o sabor de uma competição realmente disputada na pista, com todos os prós e os contra inerentes a isso. A colisão entre os dois na disputa de posição com Alonso faz parte.

A transmissão global da F-1 é muito judiada por todo mundo, mas hoje, pelo menos hoje, eu me permito concordar com o Galvão: o GP da Austrália foi uma corrida de grandes pilotos, que erram e que acertam em igual proporção. Porque apesar da fantasia de super homem que o esporte a motor mitifica, o automobilismo ainda é disputado por seres humanos. Hamilton e Webber podem não ter conquistado resultados expressivos, mas deram cores mais vivas à corrida.

Fábio Andrade



Esses dois tiraram o GP da Austrália pra se engalfinhar. Lewis foi o showman do GP, mas Webber não deixou por menos depois que o inglês mandou ele se aposentar em praça pública.

No comecinho, quando ambos haviam acabado de passar o Massa, eles se tocaram e o Felipe retomou a posição. Mais no final, quando partiam para cima de Alonso, se acharam no meio da curva e foram parar na brita. Mais parecia briga de kartista. Grandes duelos, sem dúvida!

Felipe Maciel



Tradução sem Burti


Ficou infinitamente mais difícil decifrar as conversas de rádio sem o Burti, apesar de eu até gostar disso. Acho que a “F-1 Big Brother” é um pouco sem sentido, apesar de nos revelar algumas passagens curiosas.

Acho que mais difícil foi aturar a esclerose do Galvão, que tava com tudo ontem, e a transmissão da FOM, que se perdeu em diversos momentos da corrida.

Fábio Andrade



Vou ter que sugerir à Globo que da próxima vez que o Burti não puder participar, ao menos convoquem o fulaninho que faz a tradução simultânea depois do pódio no Sportv.

Ou então que o narrador instale um aplicativo moderno no celular que resolva o problema com o inglês instantaneamente. Melhor que brincar de trocar SMS durante a transmissão.

Agora ficou claro: antes de comentarista, Burti é acima de tudo um indispensável tradutor de conversas de rádio.

Felipe Maciel

domingo, 28 de março de 2010

Desempenho arrasador, resultado desanimador



FELIPE MACIEL


O trabalho de Adrian Newey foi a inspiração dos próprios concorrentes para criar seus modelos. Por isso mesmo, ninguém conhecia tão bem o caminho quanto ele para gerar um carro vencedor na temporada corrente.

Faça chuva ou faça sol, no deserto ou na cidade, o RB6 se garante na pole position e dispara na frente quando as luzes vermelhas se apagam. Mas de novo o mago da engenharia foi traído pelo contraste "performance x confiabilidade" que o acompanhou nos últimos anos e lhe privou de conquistar títulos nesta década.

Dois incidentes muitos estranhos nas duas primeiras corridas tiraram a vitória certa de Sebastian Vettel. No Bahrein, o alemão tira o pé para levar até o final, o que a princípio foi considerado problema no escapamento e posteriormente reconhecido como problema na vela do motor. Mas os rivais não engoliram essa versão, uma vez que nas voltas finais o piloto conseguiu cravar o melhor 2° setor da corrida e ainda defender a posição de Nico Rosberg. Nesse caso não seria prejuízo causado por falha mecânica e sim correção da quantidade insuficiente de combustível despejada no tanque antes da largada, supostamente 10kg abaixo do normal.



Já na Austrália uma falha súbita de freio teria surpreendido Vettel na entrada da curva 13 e o mandado direto para a caixa de brita. Um fato lamentável e vergonhoso para quem tinha tanto a "mostrar a eles!" nesse GP que marcaria a justa recuperação do atual vice-campeão. Diante disso e de outras lambanças a Red Bull que em teoria é a maior força deste início de campeonato mal consegue se manter no G4 em termos estatísticos:

Ferrari - 70 pontos
McLaren - 54
Mercedes - 29
Renault - 18
Red Bull - 18



Se a Ferrari já escapa por 52 pontos neste princípio de temporada (quando a Red Bull tem o melhor carro) a situação só tende a piorar assim que as outras forem se aproximando, com mudanças que incluem a cópia do interessante sistema que age no RB6 mantendo a altura da suspensão entre treino e corrida mesmo após o abastecimento, configurando uma enorme vantagem no qualifying e no começo das provas, quando o time energético usufrui de melhor downforce devido ao assoalho mais próximo ao solo que o das rivais.

Vettel deveria possuir 100% de aproveitamento e merecidos 50 pontos no bolso, com sua tocada segura e irretocável nessas duas provas, mas neste momento ele se encontra apenas em 7° no campeonato com 12 pontos, atrás de Robert Kubica. Tudo o que o alemão quer é poder correr sem problemas no carro. O resto ele faz acontecer.

Mencionado por muitos - inclusive por mim - como aposta para o título, precisará fazer corridas e corridas de recuperação, sendo que a fase européia bate à porta, para todos os rivais começarem a ganhar confiança no campeonato. Desperdiçar vitórias quando se tem o melhor carro é perda de oportunidade! Qualquer um sabe o peso que isso representa; num esporte competitivo como F-1 nem se fala...