FELIPE MACIEL
Já cogitei fazer um post reunindo algumas declarações de pilotos sobre a polêmica, mas perdi o interesse. Não eram comentários tão interessantes assim. Tem piloto que é declaradamente a favor da ordem de equipe, como Schumacher e Webber. Tem quem se posicione contra, como Button. Tem quem use o episódio da Alemanha para mostrar ao público por que Áustria-2002 aconteceu. Mas nenhuma entrevista acrescentou tanto quanto à de Bruno Senna, e por isso só o bate-papo dele com os jornalistas brasileiros mereceu destaque aqui.
A sinceridade e a compreensão macroscópica do piloto da Hispania é a mais pura verdade que quem está de fora às vezes não percebe.
Fórmula 1 é um negócio antes de ser um esporte. O esporte são os pilotos, o negócio são todas as outras pessoas que estão ali dentro.
Bruno Senna
Sim, a Fórmula 1 é antes de mais nada um negócio. Ela nasceu do negócio. Quando se praticou F-1 pela primeira vez, como foi? Alguém pegou um par de chuteiras e uma bola e saiu jogando? Pegou uma raquete e um par de tênis e começou a passar a bolinha por cima da rede? Não. Antes de existir competição de Fórmula 1 era necessário existir dinheiro, engenharia, fornecedor, carro... os pilotos são a última peça do quebra-cabeça para que se concretizem as corridas.
Um negócio que vira esporte; um esporte que, quanto mais cresce, mais próximo do negócio fica. O raciocínio básico do jogo de equipe da Ferrari - de ganhar a qualquer custo - é o mesmo que leva o Ecclestone a virar as costas para a França e inventar GP em Abu Dhabi. Essa é só uma constatação da dura realidade deste esporte. Não significa que devemos aceitar nada, apenas uma constatação de sua natureza, repito. Mas a parte mais interessante da entrevista vem a seguir, com o repórter Felipe Motta dialogando com Senna a respeito do comportamento da torcida brasileira diante da manipulação em Hockenheim.

O piloto brasileiro se encontra numa situação muito difícil. Eu conversei com jornalistas do mundo inteiro e eles me disseram que quando há ordem de equipe no país deles, a torcida fica incomodada mas direciona muito de sua revolta para a equipe porque ela tem esses valores de autoridade e de expectativa. Não que o brasileiro não tenha isso de respeitar autoridades. Tem, mas eles vinculam a F-1 ao piloto e ao país como se fosse uma Olimpíada. F-1 é uma Olimpíada?
Felipe Motta
Esporte é esporte. Pelo que eu sinto da torcida brasileira, o esportista brasileiro tem obrigação de vencer, como na Copa. A seleção brasileiro chega na Copa com a obrigação de vencer. Não é justo para ninguém lidar com esse tipo de pressão. Todo mundo que disputa um esporte de alto nível como é a F-1, como é a Copa... a competição é forte, ninguém tem a obrigação de ganhar nada. Não existe alguém que seja tão extraordinário que não exista competição. As pessoas têm de entender que o esporte é competição. Ninguém é invencível.
É uma coisa que todo mundo tem de se educar, aprender a torcer pelo sucesso do esportista, e não só pela vitória. Ele pode ser bem sucedido, mesmo não sendo o campeão, o melhor de todos os tempos. É uma profissão: você faz porque gosta e não porque você só pode ser campeão. (...) O esportista quer o torcedor que torce pelo sucesso dele, não que o odeie quando ele não obtém o sucesso que foi projetado. Acho que é uma questão de educação.
Bruno Senna
A conversa prosseguiu com o jornalista avaliando que o público se sentiu lesado pela manobra da Ferrari, já que na óptica do torcedor, o esportista pode ter sucesso ou insucesso desde que tenha perdido na pista, algo que qualifica o episódio como indigno. Bruno comenta ser difícil argumentar que se entregue um GP de mão beijada ainda no meio da temporada, mas contrapõe que às vezes se sacrifica uma corrida para ganhar coisas mais à frente.
Enfim, não cabe aqui reproduzir todos os melhores momentos da conversa, por isso deixo o
link com áudio da entrevista completa.

Tenho a sensação de que o Brasil é o pior país para se nascer caso se pretenda ser um piloto de Fórmula 1. Vejo comentários dizendo que Massa virou o novo Rubinho. Pois bem, quando foi que Rubinho virou Rubinho? Foi na Áustria há 8 anos? E bastou o Massa executar ato semelhante agora na Alemanha para ele "entrar para o clube"?
Aí é que está. O público brasileiro tem a incrível capacidade de se deparar com uma cena revoltante e apagar todas as demais passagens da carreira de um piloto, deletar todas as qualidades que reconhecia no esportista e dizer que se recusa a torcer por ele novamente.
Se no lugar do Felipe, o Kubica fosse o companheiro do Alonso a abrir para o espanhol, ninguém aqui passaria a ignorar o potencial do polonês e tudo o que ele já mostrou na Fórmula 1. Nem aqui nem na Polônia, nem em canto algum.
O povo brasileiro leva casos como este para o lado pessoal. O que me remete inevitavelmente àquela velha frase: "triste do país que precisa de heróis". Não vou argumentar que não se deve condenar o Felipe e depositar sobre ele a carga de responsabilidade pelo caso; seria inútil. Neste país, busca-se um novo Senna e nada menos que isso. Nunca vão encontrar e nunca desistirão de procurar. E o caráter implosivo da torcida brasileira seguirá destruindo ídolos de respeito.
Não que isso me afete. Não sou eu quem precisa de piloto brasileiro para assistir Fórmula 1.